segunda-feira, 7 de março de 2011

A nossa realidade.....


"O Diário do Professor Arnaldo - A fome nas escolas     

Publicado em 19 de Novembro de 2010 por Arnaldo Antunes    

Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola.  Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e,  até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para  dar aos dois filhos.    
Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos  mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é  óbvio, fiquei chocado.     

Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não  podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também  não queria nada a não ser desabafar. De vez em quando, dão-lhe dois ou  três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para  que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está  completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e  recorre à instituição daqui da vila - oferecem refeições quentes aos  mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que  vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha.     

Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude.  Sabe que pode contar com a escola. Os miúdos têm ambos Escalão A,  porque o desemprego já se prolonga há mais de um ano (quem quer duas  pessoas com 45 anos de idade e habilitações ao nível da 4ª classe?).  Dão-lhes o pequeno-almoço na escola e dão-lhes o almoço e o lanche.  O  pior é à noite e sobretudo ao fim-de-semana. Quantas vezes aquelas  duas crianças foram para a cama com meio copo de leite no estômago,  misturado com o sal das suas lágrimas...     

Sem saber o que dizer, segurei-a pela mão e meti-lhe 10 euros no  bolso. Começou por recusar, mas aceitou emocionada. Despediu-se a  chorar, dizendo que tinha vindo ter comigo apenas por causa da  mensagem que eu enviara na caderneta. Onde eu dizia, de forma dura,  que «o seu educando não está minimamente concentrado nas aulas e, não  raras vezes, deita a cabeça no tampo da mesma como se estivesse a  dormir».    

Aí, já não respondi. Senti-me culpado. Muito culpado por nunca ter  reparado nesta situação dramática. Mas com 8 turmas e quase 200  alunos, como podia ter reparado?    

É este o Portugal de sucesso dos nossos governantes. É este o Portugal  dos nossos filhos....."